A expiração da proteção patentária da semaglutida no Brasil desencadeou uma nova etapa de concorrência no mercado de medicamentos para diabetes e controle de peso. Com o fim da proteção, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) passou a autorizar uma nova geração de produtos à base da molécula, incluindo versões sintéticas e o primeiro medicamento genérico da categoria.
Segundo levantamento publicado pela VEJA, já são 12 opções de medicamentos à base de semaglutida autorizadas pela Anvisa, algumas disponíveis no mercado e outras ainda em fase de precificação e lançamento.
Expiração da patente abre espaço para novos concorrentes
A semaglutida ficou mundialmente conhecida por meio do Ozempic, medicamento desenvolvido pela farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk. Com o fim da proteção patentária no Brasil, fabricantes nacionais passaram a disputar espaço em um segmento que apresenta forte demanda.
O primeiro movimento ocorreu em maio de 2026, quando a Anvisa aprovou o Ozivy, da brasileira EMS, um medicamento à base de semaglutida sintética. O produto chegou às farmácias em junho e comercializou 200 mil unidades somente em julho, segundo os dados apresentados pela publicação.
Em julho, a Anvisa também autorizou outros cinco medicamentos similares:
- Owozy
- Seemasun
- Zempneo
- Semavy
- Orsema
Posteriormente, a agência aprovou outras duas opções, entre elas a primeira versão genérica desenvolvida pela própria EMS. Com isso, a concorrência passou a envolver diferentes categorias regulatórias e modelos de desenvolvimento.
Concorrência e impacto sobre preços
A expansão do número de fabricantes tende a aumentar a competição e pode pressionar os preços para baixo.
O Ozivy, primeira caneta nacional de semaglutida, chegou às farmácias por R$ 333 por unidade nas condições do programa Vida + Leve, da EMS. A empresa atribui a possibilidade de preços mais competitivos à tecnologia desenvolvida internamente e à produção integralmente local.
A própria Novo Nordisk também permanece no mercado. No final de 2025, a empresa firmou acordo com a brasileira Eurofarma para produção e distribuição de medicamentos à base de semaglutida.
A movimentação mostra que a expiração da patente não significa a saída do titular original do mercado, mas a transformação da estrutura competitiva após o término da exclusividade.
Inovação além da cópia do medicamento original
A entrada de novos produtos também evidencia a diferença entre medicamentos biológicos e sintéticos.
A semaglutida utilizada originalmente em Ozempic e Wegovy é um medicamento biológico, produzido a partir de células cultivadas em laboratório. Parte dos novos produtos autorizados no Brasil, entretanto, utiliza semaglutida obtida por síntese química.
Essa distinção é relevante para a propriedade intelectual e para o ambiente regulatório, já que a expiração da proteção da molécula não significa simplesmente reproduzir a tecnologia originalmente desenvolvida pelo titular.
No caso do Ozivy, por exemplo, a utilização de uma rota sintética permitiu seu enquadramento como produto inédito, embora utilize a mesma substância de base. A versão genérica posteriormente aprovada tem como referência justamente o Ozivy.
Regulação acompanha expansão do mercado
O crescimento acelerado do número de produtos também levou a Anvisa a intensificar a análise dos pedidos de registro.
Segundo a matéria, a agência avaliou 24 solicitações, das quais 11 haviam sido concluídas até a publicação: seis receberam aprovação e cinco foram reprovadas. O processo inclui a análise dos dossiês técnicos e a inspeção das linhas de produção.
O movimento ocorre paralelamente à preocupação com o mercado de produtos irregulares. Entre novembro de 2025 e julho de 2026, foram importados 4,2 quilos de semaglutida e 150 quilos de tirzepatida na forma de insumos. No mesmo período, a Anvisa realizou 33 operações de fiscalização em farmácias de manipulação, sendo 14 delas em parceria com a Polícia Federal.
Propriedade intelectual e transformação do mercado farmacêutico
O caso da semaglutida ilustra como o fim de um período de exclusividade patentária pode alterar rapidamente a dinâmica competitiva de um mercado farmacêutico.
A entrada de novos players cria oportunidades para:
- Ampliação da oferta de medicamentos;
- Desenvolvimento de diferentes tecnologias de produção;
- Redução potencial de preços;
- Aumento da concorrência entre fabricantes;
- Expansão do acesso a tratamentos.
Ao mesmo tempo, o cenário demonstra que a expiração de uma patente é apenas uma das etapas do processo de entrada de novos medicamentos. Aprovação regulatória, capacidade produtiva, precificação e estratégias de mercado também determinam a velocidade com que a concorrência efetivamente chega ao consumidor.

